crônica de um ingresso

Foi uma fração de segundo, entre os sinais insistentes avisando que o espetáculo ía começar e ela procurando um mísero troco na carteira, cada milímetro de movimento foi esticado numa câmera lenta triste.

Era a penúltima apresentação da montagem de Hamlet de um renomado diretor alemão e nessa noite haveria legendas em inglês.

Estávamos ansiosos em assistir e apesar dos ingressos esgotados pegamos fila para tentar conseguir ingressos extras. Quase duas horas de espera, pegamos senha,  esperamos, Murillo comprou cigarros mesmo querendo parar de fumar, caminhamos, sentimos frio, procuramos o sol e um pouco antes de chegar nossa vez na fila com senha número 11, o homem da bilheteria nos mandou comprar cerveja e ir embora para o parque.  Esse foi o jeito humorado dele de dizer que não haviam mais ingressos.

Naquele momento fiquei levemente desnorteada entre escrever numa plaquinha: queremos ingresso para Hamlet, ou abordar as pessoas perguntando se tinham ingressos sobrando. Abordagens pessoais aqui são sempre difícil porque o espaço do outro é muito definitivamente o espaço do outro e invadí-lo é sempre uma barreira que merece uma boa justificativa.

Entre viradas de cabeça a procura uma moça veio em nossa direção dar dois ingressos já nos entregando em mãos. A alegria nos invadiu, mas na realidade eram para a outra apresentação da noite. Aceitamos na esperança de quem sabe se tudo der errado é nessa outra peça que  morava o segredo que merecíamos naquele dia. Mas continuamos lá, impassíveis cruzando olhares e desviando olhares entre a necessidade e a derrota.

Os sinais de que o espetáculo estava para começar começaram a tocar com curto espaço de tempo, as pessoas entrando. Meus olhos faziam movimentos rápidos, coração batendo forte, e meus pensamentos obecessivos de que ainda íamos conseguir. Fitava os olhos das pessoas com aquela voz interna de pedinte e dando graças à deus de não precisar falar alemão com os olhos, embora na verdade sempre precisamos.

E então do outro lado da porta  vestida de bege, cabelos penteados e soltos, maquiada, uma moça oriental me olha, ela do lado de fora do prédio de espetáculos e eu lá dentro entre colunas douradas. Mantemos contato visual, aqueles segundos de olhos desconhecidos que se sustentam pedindo licença querendo dizer alguma coisa. Com seus olhos puxados ela me responde: eu vou até você. Eu espero.

Ela caminha na nossa direção. Lenta. O sinal tocando. E então nos pergunta  em voz baixa: você querem tickets?

Surpresos perguntamos se era para Hamlet ela nos mostra os tickets com o nome do mesmo escrito,  mas éramos dois e nos olhamos com aquela cara de quem vai ficar de fora, ela então nos diz para ficarmos com os dois ingressos.

Olhamos excitadíssimos e incrédulos sorridentes e agradecidos, damos o dinheiro e assim, ela abaixa a cabeça para pegar sua carteira e enquanto movimenta suas mãos para pegar o troco começam a escorrer lágrimas dos seus olhos e ela começa a chorar copiosamente.

Começa a chorar copiosamente. Eu paraliso. O sinal toca. Eu e Murillo nos olhamos, não sabemos o que fazer, insistimos na pergunta de se ela quer mesmo nos vender os ingressos ela disse que sim que já assistiu o espetáculo e que queria assistir com ele e chora.

Eu quero abraçá-la. Me contenho. Peço para Murillo dizer em alemão que ela não merece esse homem, que ela é maravilhosa, Murillo diz: you don’t deserve this man, e a abraça. Eu a abraço. É tudo muito rápido, ela chora e nos sorri dizendo para aproveitar o espetáculo que é maravilhoso, o sinal toca mais uma vez, ela chora, nós temos que ir, eu quero abraçá-la de novo, mas meu corpo vai se virando para porta, na verdade não sei o que fazer.  Ela sorri, ela está feliz por nós, ela está devastada por dentro.

Vamos indo embora, eu perplexa por essa fração de segundo de vida que nos atravessou, caminho para frente com a cabeça virada para trás olhando-a. Eu e Murillo nos olhamos em silêncio. Olhos abertos tentando entender. Entregamos os tickets, começamos a caminhar para dentro. Lá fora ficou a moça com seu coração partido. Começamos a entrar nas poltronas, e a moça lá fora com seu coração partido. O espetáculo vai começar, e me pergunto porque não a abracei um pouco mais, as luzes se apagam e ela está lá fora em algum lugar caminhando sozinha para o metro, e eu pensando que poderia estar com ela nesse momento secando suas lágrimas, mostrando que a vida é linda apesar da dor, mas as luzes se apagam, e o espetáculo vai começar é Shaekspeare, é Hamlet, mas eu apenas penso que “só ri da cicatriz quem nunca foi ferido”, que é Romeu. Começa.

em papel de leite

eu queria passar uma tarde com você, sentada num bar com mesas feitas daquelas tiras de madeiras onde sempre sobra um vão. você deixaria sua cerveja se desequilibrar nesse vão e quase se molhar, mas com sua agilidade só molharia um pedaço da sua blusa na altura do peito.
passaria a tarde alí falando de literatura com você. não, não levaria bebê, não correria para o meio da rua para buscar a criança enquanto interrompemos nosso assunto.

mães

Chegamos de bicicleta juntas eu e Sonja. Nós duas correndo, nós duas de vestido, nós duas com a cadeira para crianças no bagageiro.

a lição de casa era escrever frases simples sobre alguma pessoa das nossas vidas. Sonja que estava deslumbrante com seu vestido curto de padrões geométricos, cabelo solto e pernas à mostra escreveu:

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Aula de Alemão

Na primeira aula de alemão, Sonja uma transexual sueca de 1,90m, cabelo platinado loiríssimo, olhos azuis e vestido curto, senta-se delicadamente à frente da placa de pronomes que define e separa os femininos e os masculinos.

Em looping eu olhava aquela imagem atravessada, quieta e estupefata.

Toda gramática foi explodida por um só corpo, lá naquela sala.